
O sol desfocava-me do outro lado do rio, o ar soprava-lhe folhas e a água turva não me permitia ver o reflexo apreensivo que eu exteriorizava e paralelamente a este, estavas tu, da outra margem, aquela em que nos vimos de perto.
Gradualmente aproximava-me e pensava: Que momento solene e merecedor depois de tanta espera, antes separados pelo Atlântico e agora, agora era só um rio, mas com ponte, a tal ligação directa a ti, o momento cinematográfico desejado por qualquer realizador que se preze. Anos, passei a anos a desacreditar na existência de tais momentos, descrente da genuinidade dos sentimentos através da procura. Cada passo era contado, cada pensamento era desculpabilizado, cada ilusão desaparecia, ao encontro da realidade. O nervosismo, esse teria que desaparecer, então falávamos, fumo inalava, as tuas palavras já não estavam distantes, as teclas gastas teclantes, não faziam mais sentido, agora eu é que deslizava, o monitor era a bela paisagem, os pensamentos pensantes estavam prestes a serem revelados, a cascata das nossas palavras seriam perceptíveis , estávamos perto e unidos pela arte divina, forte como o aço, nem o Pablo Picasso, fascina !E isso ficou comprovado quando te vi e senti o turbilhão intrínseco em mim.
O teu olhar profundo, denso e expressivo, a tua sonoridade vocal soante, a tua boca ávida , a tua face realmente palpável ao toque, tão bonita. Gostei verdadeiramente da tua complementaridade exógena e endógena. Foi como se o virtual se tivesse difundido em realidade e então, surge vida, surge os elos emocionais.
A naturalidade e o desenvolvimento do nosso momento, revelou surpresa em mim. Nunca pensei que num primeiro impacto, tudo aquilo acontecesse de forma tão espontânea.
As estrelas assistiram e na altura urbana desse momento, senti o que me eleva a escrever isto: Felicidade.
Inalcançáveis pelo mar,
Desencontrados pela terra,
Separados por um rio,
Por fim,
Unidos por nós mesmos.